O estudo AFFIRM-AHF demonstrou que o tratamento com carboximaltose férrica IV, em doentes estabilizados após um episódio de insuficiência cardíaca (IC) aguda e com défice de ferro, foi eficaz na redução do risco de hospitalização por IC, com um perfil de segurança favorável. Para conhecer a relevância do estudo e a significância dos seus achados para o atual panorama nacional, a My Cardiologia entrevistou a Prof. Doutora Dulce Brito, coordenadora do projeto de telemonitorização de doentes com IC e do programa RICA-AHF.

My Cardiologia (MC) | Na sua opinião, qual o valor acrescentado dos resultados do estudo AFFIRM-AHF?
Prof. Doutora Dulce Brito (DB) | O estudo AFFIRM-AHF foi o primeiro estudo clínico aleatorizado a avaliar o efeito da carboximaltose férrica (CMF) na morbilidade e na mortalidade em doentes com insuficiência cardíaca (IC) e défice de ferro, após descompensação por IC aguda. Esta população tem risco particularmente elevado de rehospitalizações e mortalidade após a alta hospitalar e os resultados do estudo (que incluiu apenas doentes com fração de ejeção inferior a 50%) demonstraram diminuição significativa no risco de hospitalizações por IC durante o período de 52 semanas após a aleatorização. Estes resultados, embora sugeridos em análise retrospectiva de estudos prévios, não haviam sido demonstrados de forma prospectiva e constituem uma mais-valia inequívoca em adição ao benefício já reconhecido da terapêutica com CMF na melhoria dos sintomas, da capacidade funcional e da qualidade de vida em doentes com défice de ferro e IC.

MC | Qual dos resultados do estudo AFFIRM-AHF destacaria como mais relevante e porquê?
DB | A diminuição do risco de hospitalizações recorrentes é sem dúvida a mais significativa e relevante, embora o benefício no objetivo primário do estudo (composto de hospitalizações recorrentes por IC e mortalidade cardiovascular) se traduzisse numa diminuição de 21% no risco relativo da sua ocorrência, resultado importante, embora no limiar da significância estatística. Adicionalmente, o grupo sob terapêutica com CMF mostrou, em comparação com o placebo, benefício significativo no tempo até à primeira hospitalização por IC ou morte cardiovascular (desfecho composto) e menor número de dias perdidos devido a hospitalização por IC ou morte cardiovascular.
A relevância destes resultados traduz-se num benefício importante no prognóstico, considerando a elevada taxa de rehospitalizações da população com IC (nomeadamente no chamado “período vulnerável”, ou seja nos primeiros meses após a alta na sequência de hospitalização por IC aguda), bem como a elevada mortalidade a elas associada, a qual pode atingir 24% no ano que se segue à alta hospitalar.

MC | Na sua opinião, de que forma os resultados do estudo AFFIRM-AHF poderão ter impacto na prática clínica atual e recomendações de boas práticas?
DB | As comorbilidades são uma causa frequente de descompensação de IC motivando internamento hospitalar. O défice de ferro, mesmo na ausência de anemia, é uma comorbilidade muito frequente no doente com IC crónica (existindo em 30 a 50% dos casos) e ainda mais frequente (50 a 80%) no doente com IC aguda/crónica descompensada. Os resultados do estudo AFFIRM-AHF reforçam e sustentam a necessidade de identificar a existência de défice de ferro no doente internado com IC aguda e fração de ejeção inferior a 50% e de corrigir precocemente esse défice com CMF, após estabilização clínica, e antes da alta hospitalar. Estaremos não apenas a seguir as Recomendações vigentes mas a minimizar o risco de novas hospitalizações por IC. Também é importante notar que no estudo AFFIRM-AHF, a percentagem de doentes que sofreu efeitos adversos graves foi idêntica no grupo tratado com CMF e no grupo placebo.

MC | Atendendo aos resultados do estudo AFFIRM-AHF e ao atual cenário de pandemia considera que a redução das sucessivas hospitalizações por IC ganha ainda maior importância?
DB | Claro. Num período pandémico, em que o internamento hospitalar se torna algo particularmente a evitar, tratar todos os fatores que possam ser potencialmente causa de descompensação de IC é fundamental. Assim, o diagnóstico de défice de ferro deve ser efetuado por rotina em todos os doentes com IC e o seu tratamento eficaz é imperioso.

MC |A Prof.ª Doutora Dulce Brito é coordenadora do projeto de telemonitorização de doentes com IC e do programa em que aquele está inserido: o RICA-HF Team (Registo de IC Aguda e Programa de seguimento – Heart Failure Team). Face aos resultados do estudo AFFIRM-AHF, acredita que a administração de carboximaltose férrica nos doentes com IC e deficiência de ferro poderá ajudar a proporcionar mais segurança e conforto à telemonitorização nestes doentes?
DB | Em qualquer programa de seguimento de doentes com IC, é uma necessidade inerente a correção de qualquer fator que possa ser potencialmente causa de agravamento e descompensação da síndrome. Naturalmente que a avaliação do défice de ferro e o seu tratamento fazem parte inerente do programa e o doente sob telemonitorização é, pelos critérios de inclusão que definimos, o doente com IC mais grave, com fração de ejeção mais deprimida e com pelo menos um episódio de descompensação de IC motivando internamento no ano precedente. A par da melhoria dos sintomas, da capacidade funcional e da qualidade de vida, um dos objetivos major do programa de telemonitorização é evitar a necessidade de hospitalizações por descompensação, quer pela sua prevenção, quer pela atuação precoce quando existe ameaça de agravamento clínico/hemodinâmico. A correção do défice de ferro, contribui para estes vários objetivos, incluindo para minimizar o risco de rehospitalização, e nesse aspeto, proporcionará também uma maior segurança no seguimento destes doentes.